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domingo, 8 de janeiro de 2012

DIÁLOGO DA SECA NO NORDESTE !








O vento sopra trazendo a brisa da noite. Na casa de pau a pique, de cócaras, o pai ao ouvir o soluçar da esposa na cozinha, junto ao fogão a lenha, preparando um cozido de palmas (cacto) com filé de camaleões! Emocionado: diz aos filhos famintos:  Para o próximo ano, quando o inverno  (nome que dão ao período de chuva)vier, farei um bom roçado, guardarei farinha de macaxeira  e feijão e levarei o Severino para tirar o seu titulo de eleitor , pois estará completando 16 anos para "puder" votar na próxima eleição.! Severino retrucou dizendo,  Não adianta pai. O pai decepcionado pergunta-:Por quê filho? Severino responde: Porque dizem que a eleição faz parte do exercício da cidadania, mas cidadania de panela vazia ,seria melhor o exílio sem anistia, a escravidão sem alforria, a anoite sem alvorecer do dia, a doença sem a profilaxia, um carnaval sem fantasia.! O Pai responde:  Em parte tens razão Severino, a eleição até hoje não trouxe nada além de sextas básicas para o sertão, apenas os políticos permaneceram no poder e talvez até possam ter aumentado o seu quinhão! Mas a cada nova eleição reacende a esperança no meu coração, às vezes entro até em devaneios, sonhando que um dia poderei comprar uma bomba de irrigação, e ver a água em fartura rolar pelo chão, ter a dispensa cheia e não ter que apagar as brasas do fogão, talvez até aposentar o jegue, com a compra de um velho caminhão, até mesmo visitar São Paulo, para encontrar velhos amigos e alegrar meu coração!. Severino levanta outra questão: - Pai, como faremos para suportar mais esse flagelo? O pai responde com provérbio: - Filho preocupe não: Pois enquanto existir Deus no céu, urubu não comerá folha, e continua: - Nós ainda temos a terrinha, que com a chuva nos oferece grande provisão, pior mesmo é para os sem terra, que tem por abrigo a lona de caminhão, por justiça a ordem de desocupação ou de prisão, por consolo cassetete, metralhadora e talvez até canhão. Severino não se satisfaz e vai mais longe, e pergunta:  Porque tanta gente chegou a tal situação? O pai mais uma vez se sentiu apertado diante de tal arguição. Respirou, pigarreou, e começou a sua dissertação: - Meu filho fique sabendo que nesse grande Brasil, tem pouco chão habitado, tem pouco chão plantado e muito chão ocupado por campos e cerrados comprados, talvez com dinheiro limpo, ou  lavado, ou do Governo grilado, sem repressão de soldado, com documento legalizado, o que deixa o povo muito espantado. Mas não fica só nisso, a fome que leva a morte também provoca movimentação, ai todo esse povo começa a terra buscar, vão à busca da terra que o dinheiro irresponsável e especulativo permitiu abandonar, mas basta invadir a cerca para o dono lá da capital se manifestar, logo vem o oficial de justiça escoltado por um pelotão de soldados, trazendo a ordem de desocupação, e se houver resistência, ai vem o soldado muito bem armado, que como atividade principal é de defender o Estado e  que também passa o maior tempo no quartel esperando serem convocados, para em delegação irem ao local  pela justiça indicado, e quando Ha resistência eles mete bala e cassete nos coitados, que podemos considera-los despatriados dentro da própria nação. Mas Severino não fica satisfeito, e vai mais além, e diz que ouviu no rádio lá da venda que está havendo saques de  de caminhões e de supermercados e que as autoridades disseram que isso é roubo!. E pergunta ao pai: - O que o senhor acha? O pai responde: - É uma pergunta difícil de responder, mas certo fato ocorrido com meu compadre dá pra comparar.: Compadre Cícero após colher um bom roçado, vendeu parte da safra e aplicou na poupança, que tem a garantia do Governo. Logo após a eleição o novo Governo na calada da noite, sequestrou todo dinheiro na poupança aplicado, veja que sequestro é crime, não pagou a correção do mês, que também é crime, “justificando” que para derrubar a inflação as medidas foram duras, mas necessárias, com o apoio dos Ministros da Justiça que não tomaram nenhuma decisão jurídica para impedir tal infração. Por tanto a fome extrema, da miséria extrema dos povos do sertão nordestino, do Vale do Jequitinhonha, e das grandes favelas das grandes cidades, não precisam justificar os meios utilizados para sacia-los em situações extremas, pois o exemplo vem de cima, e os políticos nesses locais não chegam em tempo hábil para resolver tais conflitos, mas chegam em tempo recorde para a campanha de eleição, aí o desespero de um povo desamparado, exilado na própria terra. Terra onde a recepção e hospitalidade com presidentes, reis e rainhas, políticos estrangeiros, são feitos com muita pompa e dispendioso cerimonial, mas a solidariedade com o brasileiro excluído é beligerante e repressiva, não aponta para nenhum horizonte, mas para uma nova eleição decepcionante.

Notas: Trecho do texto “Seca” publicado no Jornal Inverta, segundo semestre de 1988.

“70% realidade e 30% ficção”




Videos: A Marcha Interrompida do MST e A Carta do Chefe Seattle
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Canção do exílio !

Jequitinhonha.bogspot.com.br: Ipê amarelo

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